Variáveis Amorosas: O Amor Quixotesco e a Musa Incompleta

Não há nada mais complexo do que a atração sincronizada e perfeita entre duas almas. A engenhosidade no teatro da sedução, os temperamentos, as experiências prévias no jogo do amor e as variáveis esotéricas que compõem o hermetismo dos espíritos fomentam uma aleatoriedade de possibilidades quase infindas entre os dois corpos que se cortejam. Encontrar o seu par em termos de reciprocidade é uma tarefa hercúlea, mesmo sendo perfeitamente possível encontrar um outrem satisfatório que saiba admirar e aceitar as suas características mais preponderantes. O mais adequado dos pares, porém, aquele com quem a cadência da vida tomaria uma harmonia perfeita de curso, é improvável de ser encontrado. Somando ainda com características externas, como fenótipo e cultura, a diferença de espaço-tempo entre você e o amor da sua vida pode ser absurda. Ele ou ela pode ter vivido há mais de cinco mil anos, numa civilização africana, ou ainda irá de nascer daqui trezentos em um novo país do hemisfério norte. É razoável concluir, destarte, que quem faz o amor fluir agradável e naturalmente, como o vento, são os próprios amantes. Temos de nos satisfazer plenamente com o que nos foi presenteado e fazer o melhor possível, com nossos humildes trejeitos milenares, para com o objeto de afeto. Mas há também um sintomático sentimento de amor, louvável em sua essência romântica e execrável em sua natureza inata. É o que eu poderia chamar de amor quixotesco, uma espécie de idealização do amor que se personifica em algo ou alguém.O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, em termos chulos, deslocou toda a fertilidade de sua imaginação para o mundo real sem mais conceber a linha que apartava a fantasia da realidade, produzindo um efeito humorístico e agradável aos nobres leitores de sua história. Para ele era tudo muito sério, as ações eram intensas e poderosas como só as da existência prática podem ser. O amor quixotesco, então, é deslocar toda a fertilidade romântica que existe em sua imaginação para a cerne do objeto idealizado. A partir desse momento toda a beleza e essência do mundo se deparam personificados na figura(no meu caso, a alma feminina) platonizada. Hoje ela representa para mim o quociente da suscetibilidade de meus anseios mais nobres e belos, ela se tornou a chave para o meu mundo maravilhoso e para manutenção deste. Que posso fazer eu agora que afronto a parte mais nobre de mim com o adicional de uma beleza tão longínqua? E ainda me vem uns merdas a falar sobre a trivialidade da estética, ouvi muitas vezes desgraçados maculando a importância do belo. Pois pensem comigo, todas as características que consideramos adequadas e nobres são Quid Pro Quo, características objetivadas que se adequam em outra coisa que não em si próprias. O que mais neste mundo tem sua adequação em si mesmo além da beleza? A honra serve para proteger a alma, a justiça é subordinada à ordem e sem esta não existiria. A educação serve à frutificação, a verdade é subserviente à clareza. O mundo funciona sob regras de sujeição, mas a beleza, esta inexplicável, é a única que repousa em suas próprias competências. Há de ser algo mais verdadeiro e livre do que Ela? E como não morrer pela alma que contém os ideais de meu mundo e os segredos sutis da beleza? Tornei-me subserviente à beleza da mulher que agora porta, sem ciência disto, os meus ideais. Mas como denominar um afeto que, além de belo, é agora a personificação de todos os meus princípios? Suponho não haver outra denominação que não seja Musa!One shade the more, one ray the less, Had half impaired the nameless graceWhich waves in every raven tress,Or softly lightens o’er her face;Where thoughts serenely sweet express,How pure, how dear their dwelling-place

Éden Absoluto

Passam por nossas vidas almas grandiosíssimas mas por circunstâncias cármicas nos afastamos de algumas delas. Outras são nossas amigas e familiares, e com algumas desenvolvemos um singelo romance de carícias, sorrisos e palavras. Que são palavras? Por que nos sujeitamos à tal limitação? O amor quixotesco tem suas convicções enraizadas no local mais profundo do infinito da morte e um amor de palavras, carícias e sorrisos nunca entenderá a imensidão da alma humana. O homem deve se entregar ao amor quixotesco o mais rápido possível para ter a visão do Éden Absoluto localizado no lirismo dos seios de uma mulher. Que são carícias e planinhos? O Éden Absoluto exige o fenecimento transcendental que só o amor quixotesco pode oferecer.

A Morte

O amor quixotesco, se recíproco entre Musa e amado, sugerirá um infinito poderoso que só a ultrapassagem das estruturas mundanas poderá satisfazer. É tão elevado que desce à Terra sustentado por um fio que pende na cerne do próprio Deus. Nada mais natural do que a morte carnal dos amantes ao contato etéreo com o amor quixotesco.Mas, ai daqueles que amam quixotescamente de forma não recíproca! A estes se foi dado uma lúgubre provação de vida, uma vida dependente das apreciações estéticas da Musa. Pois é nelas onde se encontram os próprios ideais. Mas se a Musa morrer… Se a Musa morrer…Dante Alighieri foi o único homem que, enquanto vivo, já estava morto.

O que Resta

O que resta, então, ao homem que tem seus princípios entregues à beleza inexorável e não correspondida? Sendo a Musa ainda de carne e sangue haverão parcos momentos de vacilação de sua alma. Se for você pouco poeta e homem pífio como aquele que te escreve, verás em uma conversa, nos trejeitos, em algum momento, uma brecha que transportará a Musa ao mundo dos homens. Neste momento será preciso roubar para si a idealização outrora entregue inconscientemente à ela. Destarte poderá torná-la a Musa incompleta: continuará sendo portadora de beleza entorpecedora mas os seus ideais voltarão a ser miseravelmente seus, leitor. Os olhos profundos, a voz da sereia, os toques gentis e o beijo hermético viverão em seus sonhos como um instante heroico. É a morte da potência, e o amor quixotesco que você antes tinha se torna apenas uma memória de um Éden Absoluto que você nunca conheceu e não mais conhecerá.

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